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Entre as orações subordinadas, o casamento é mais difícil. A comunicação, mais sutil. Como se trata de enunciados que dependem uns dos outros para sobreviver, o entrosamento deles deve ser perfeito, de tal magnitude que precisam apresentar estrutura gramatical e sintática idêntica. A essa comunhão de almas chamamos paralelismo.
Observe este período:
Não se trata de defender a intervenção do Estado na economia ou que o Estado volte controlar as taxas de câmbio.
Alguma coisa soa mal, não é mesmo? Vamos decompor as orações para entender melhor o relacionamento entre elas. Na prática, faremos a velha análise sintática:
Não se trata de defender
a) a intervenção do Estado na economia
b) ou que o Estado volte a controlar as taxas de câmbio
A e b são objetos diretos do verbo defender. Têm a mesma função, mas não a mesma estrutura sintática. O primeiro é nominal (a intervenção). O segundo, oracional, construído com verbo (que o Estado volte a controlar).
Cruz credo! É lé com cré. Impõe-se que o lé converse com o lé, e o cré com o cré. Em outras palavras, impõe-se observar o paralelismo – dar aos dois objetos a mesma estrutura. Assim:
Não se trata de defender
a) a intervenção do Estado na economia
b) ou a volta do controle estatal das taxas de câmbio
Ou
Não se trata de defender
a) que o Estado intervenha na economia
b) ou (que) volte a controlar as taxas de câmbio
Veja outro exemplo:
Nosso casamento depende do amor entre nós e em batalharmos juntos.
Desmembrado, o período fica assim:
Nosso casamento depende
a) do amor entre nós
b) e em batalharmos juntos
Observou? O verbo depende tem dois complementos. Um com estrutura nominal. O outro, verbal. Vamos pô-los nos eixos?
Nosso casamento depende
a) do amor entre nós
b) e da batalha conjunta
Ou
Nosso casamento depende
a) de existir amor entre nós
b) e (de) batalhar conjuntamente
Eis outro caso:
É importante trazer o trabalho completo e que cheguemos mais cedo.
O período tem duas orações que funcionam como sujeito de “é importante”:
a) trazer o trabalho completo
b) e que cheguemos mais cedo
Viu? Outra vez o lé com cré. A estrutura de um sujeito é oração desenvolvida. Do outro, reduzida. É melhor falarmos a mesma língua. Assim:
a) É importante que tragamos o trabalho completo e (que) cheguemos mais cedo.
Ou
b) É importante trazermos o trabalho completo e chegarmos mais cedo.
Mais um caso de falta de paralelismo:
Deputados federais acusados de crimes contra o patrimônio público – sanguessugas, mensaleiros, vampiros, corrupção passiva, formação de quadrilhas e fraudadores de obrigações fiscais – confiam na lentidão da Justiça para se manter na vida pública. É lamentável.
Virgem Maria! A enumeração dos crimes confunde “Germano” com “gênero humano”. Pessoas (sanguessugas, mensaleiros) se misturam com condutas (corrupção passiva, formação de quadrilha). Que tal descer do muro? Basta optar por uma outra:
Deputados federais acusados de crimes contra o patrimônio público – sanguessugas, mensaleiros, vampiros, corruptos passivos, membros de quadrilhas e fraudadores de obrigações fiscais – confiam na lentidão da Justiça para se manter na vida pública. É lamentável.
Ou
Deputados federais acusados de crimes contra o patrimônio público – fraude na compra de equipamentos hospitalares, mensalões, desvios em licitações para compra de derivados de sangue, corrupção passiva, formação de quadrilhas e adulteração de obrigações fiscais – confiam na lentidão da Justiça para se manter na vida pública. É lamentável.
Existe outro tipo de paralelismo que, desrespeitado, dá nó nas frases. Trata-se da simetria semântica. Veja este exemplo:
Fiz duas cirurgias: uma no Rio de Janeiro e outra no nariz.
A estrutura gramatical merece nota mil. Mas o sentido… Misturam-se alhos com bugalhos. Xô, satanás!
A dica de hoje foi extraída do livro Escrever melhor – guia para passar os textos a limpo, cujas autoras são Dad Squarisi e Arlete Salvador.
Grande abraço a todos.
Grupo de Desenvolvimento do Servidor Fazendário (GDFAZ).
